Princípios Políticos e Pedagógicos

A construção do espaço comum

Sendo fruto de um fazer democrático já desde sua constituição – visto ser ela mantida e administrada por uma cooperativa de trabalho –, a Arco Escola-Cooperativa norteará suas práticas pedagógicas pelos valores da democracia, da autonomia, do respeito entre todos os membros da comunidade e da resolução restaurativa dos conflitos. A cooperação é tomada como valor fundante da prática pedagógica, tanto entre os educadores quanto na relação com os estudantes e suas famílias. Acreditando que a diversidade e a heterogeneidade social são fatores determinantes para o enriquecimento dos propósitos educacionais da escola, a assimilação de famílias com diferentes possibilidades de arcar com os custos implicará numa intencional e desejada assunção de política de bolsas de estudo, a fim de atender famílias de variados extratos socioeconômicos. A Arco Escola-Cooperativa propõe às famílias e à comunidade do entorno a constituição de um espaço comum como fator estruturante do Projeto Pedagógico: bens, livros, trabalho, doados à cooperativa, não são, pela lei, passíveis de serem apropriados pelos cooperados que a compõem. Assim, fica evidenciado que a potência que moverá o espaço educacional é maior do que aquela aportada somente pelos educadores cooperados, convidando e convocando mães, pais e responsáveis e a comunidade do entorno para a construção do espaço escolar compartilhado. Da procura do imóvel (encontrado pela comunidade que apoia a constituição da escola) ao projeto arquitetônico da reforma do edifício, passando por doações de acervos de livros, confecção de portal eletrônico, logomarca, assessorias jurídica e educacional, entre outras iniciativas, a escola prática, desde sua origem, o projeto coletivo a que se propôs.

 

Alguns dos eixos do projeto pedagógico

 

O trabalho é um dos eixos fundantes do Projeto Pedagógico. A escolha do local – uma antiga marcenaria – reflete já o anseio de se poder significar o trabalho em suas várias formas como fator determinante da vida social. A valorização dos ofícios (e não só da arte) assume centralidade: a marcenaria, a tecelagem, a cozinha, a fabricação de brinquedos, a costura, são aspectos integrantes do propósito educacional, em horários de turno e de contraturno. Por outro lado, a forma como nos inserimos na cidade, numa expansão concêntrica desde a escola para o bairro (a feira, as comunidades do entorno, o estudo dos efeitos da gentrificação que vem transformando-o aceleradamente), e depois para a cidade, é também fundante do projeto educacional. Para tanto, incluímos como um dos métodos ativos em nosso projeto pedagógico os chamados Estudos do Meio, a fim de propiciar aos alunos o conhecimento gradual da realidade social, humana e geográfica de modo reflexivo, começando pela própria comunidade, o bairro, a cidade de São Paulo – as múltiplas cidades que é São Paulo, com suas diferenças tão marcantes entre bairros e zonas, com suas diferentes etnias, suas zonas de conflito e de expansão – e alargando-o a outras cidades e estados.

Nossas convicções quanto à conveniência da abertura da escola para as comunidades do entorno encontram um campo propício para florescer, visto que o bairro já dispõe tanto de equipamentos públicos quanto de redes de relacionamento já bastante consolidadas. A Universidade de São Paulo (USP) e seus museus e locais de pesquisa; o Instituto Butantã; o Morro do Querosene, com suas manifestações e produções culturais; a comunidade São Remo; o Ponto de Economia Solidária; o Clube Escola e os vários esforços coletivos de preservação que acontecem no bairro serão pontos a que a escola procurará se vincular para se tornar também um espaço de referência educacional, cultural e artística para a população local. A abertura do espaço para manifestações culturais à noite e aos finais de semana, a biblioteca aberta à comunidade são objetivos centrais, que dialogam com nossos valores pedagógicos.

Saliente-se também, como característica da Arco Escola-Cooperativa, a busca da emancipação e da autonomia dos estudantes, marcada já pela autonomia do corpo docente, de seus fazeres pedagógicos e de seus valores educacionais. A valorização dos saberes humanistas (e não só dos saberes técnico-científicos) como a filosofia, as ciências sociais, as artes em suas várias manifestações (as artes visuais, as artes do corpo, a música, o teatro) é marca fundante do Projeto.

A Arco Escola-Cooperativa compreende a escola como espaço de convivência cultural e pessoal que extrapola os espaços e tempos da sala de aula. A escola propõe-se a ser mais um epicentro no bairro de onde emanam sentidos e significados marcantes para a constituição cidadã não só dos estudantes nela formalmente matriculados, mas de uma comunidade maior, que estará sempre convidada a acessá-la. Formar cidadãos críticos, conscientes de seu papel na vida social do bairro, da cidade e do país, requer, segundo nosso entendimento, o desvelamento das condições subjetivas e materiais que cercam e influenciam nosso fazer cotidiano Nesse sentido, a eleição do trabalho como um dos eixos fundamentais do projeto pedagógico se dá, em primeiro lugar, pelo reconhecimento da importância da preparação para o trabalho como índice de inserção necessário da vida social; mas não só: também se reconhece que a compreensão das formas como se organiza o trabalho na vida moderna é de importância fundamental para a compreensão da própria modernidade e de nossas formas de relação social. Neste sentido, formar cidadãos conscientes e críticos requer o questionamento das relações que sobredeterminam a vida social, assumindo aqui as relações de trabalho papel preponderante. Assim, a valorização do trabalho passa pela valorização daqueles homens e mulheres que exercem os diferentes tipos de trabalho – donde se entende nossa já citada valorização de ofícios, muitos deles manuais, como a marcenaria, a costura, a tecelagem, a cerâmica, a cozinha, a limpeza, a manutenção do espaço, etc. Os fazeres humanos, assumidos como prática concreta, levam-nos a considerar as ciências naturais e a matemática, por exemplo, como práticas humanas e humanizantes, assumindo uma importância contida nelas mesmas e destituindo-as de uma concepção, hoje bastante difundida, de ciências auxiliares, instrumentais, a serviço meramente das tecnologias que as aplicam de modo utilitário. Assim, também as artes perdem sua dimensão de sobre-humanidade e transcendência para encarnarem-se naqueles seres concretos, comuns, mortais, que as praticam. Neste sentido, a invocação de guiarmo-nos mais por um paradigma ético-estético que por um paradigma técnico-científico não passa por um desprezo das ciências ditas exatas ou da matemática: bem ao contrário, a assunção desse outro paradigma quer justamente resgatar a importância intrínseca desses conhecimentos como constitutivos da cultura humana e não como meros aportes para uma aplicação externa a eles. O convite a que os estudantes se façam presentes no trabalho pedagógico no momento mesmo em que o trabalho pedagógico esteja sendo praticado reforça nossa posição de que o tempo na escola não é um tempo de preparação para a vida, mas a própria vida. Assim, estar presente e aberto nesta aula, para este ou aquele conhecimento, não é estar aberto àquilo que este conhecimento pode ou não engendrar: a boa nota, o vestibular, o trabalho bem remunerado. Estar presente à aula é tão importante quanto estar também presente no pátio, nas conversas não formais entre educadores e estudantes, no almoço coletivo de uma vez por semana (educadores e estudantes compartilhando o espaço, a preparação dos alimentos, o cuidado com a cozinha). Estar presente e atento é condição para o encontro: com os outros estudantes, com os educadores, com o conhecimento.

Portanto, se fosse preciso resumir numa frase os objetivos e metas da instituição, um bom mote seria: instigar e convocar constantemente os estudantes para um encontro atento e presente com os educadores, entre si e com o conhecimento. Saber do mundo, saber de si, emancipar-se reconhecendo a força de sua inteligência como sendo igual à inteligência de todos os homens − eis a meta, eis o objetivo.

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