Lançamento do jornal Folha Cooperativa

Folha Cooperativa – um documento histórico com textos de todos os estudantes da Arco durante o período de isolamento social. Leia!

Um presente para tempos difíceis

Eles tiveram que forjar para si uma arte de
viver em tempos de catástrofe para nascer
uma segunda vez e em seguida lutar, com
o rosto descoberto, contra o instinto de
morte que está ativo em nossa história.
Albert Camus

Quando o tempo parece suspenso e a vida social é interrompida repentinamente, elaborar o presente se torna uma tarefa inadiável. Por isso, dedicamos esta edição especial de nossa Folha Cooperativa como um presente para estudantes, famílias e cooperados. Um acalanto nestes tempos difíceis.

Reunir nesta publicação textos, atividades e imagens desenvolvidas pelos alunos preencheu de sentido nossas ações e conforma uma memória de tudo o que nos atravessou durante este ano de exceção. Sem dúvida, o processo de aprendizagem apartado do convívio coletivo nos afetou implacavelmente. Quando pensamos uma escola cooperativa, o encontro e o fazer junto sempre foram as bases de sustentação de nosso projeto. Quem poderia imaginar que precisaríamos vencer veredas impensáveis para ficarmos juntos? Mas, como nos ensina Guimarães, “quem elegeu a busca, não pode recusar a travessia”.

Nossa aposta aqui é a de que a leitura destes relatos do presente possa nos renovar em mais um ano de pandemia e possa gravar em nossas memórias que, apesar de tudo, 2020 não foi um ano em vão. Fizemos muito e resistimos juntos a muitas adaptações forçadas e à ausência do aconchego de nossos pares por perto.

Uma inspiração para confiar tanto neste palpite foi lembrar um livro de Michèle Pettit: A arte de ler: ou como resistir às adversidades. Nele, essa antropóloga francesa defende que “a leitura pode garantir forças de vida” e tenta comprovar isso com uma pesquisa histórica séria bem como com sua experiência pessoal, na qual percebe que, nos momentos de crise intensa – sobretudo em “contextos de guerra, de deslocamentos forçados de populações ou de vertiginosas crises econômicas” –, as pessoas procuram os livros para ajudá-las a elaborar e vencer as dificuldades. Para ela, isso acontece porque compartilhamos um mundo em crises que, obviamente, nos afetam de maneiras bem diversas, embora se manifestem em transtornos muito semelhantes:
Despertavam feridas antigas, reativavam o medo do abandono, abalavam o sentimento de continuidade de si e a autoestima e provocavam, às vezes, uma perda total de sentido. Por outro lado, podiam igualmente estimular a criatividade e a inventividade, pois, uma “crise libera, ao mesmo tempo, forças de morte e forças de regeneração”.

Fiquei imaginando que, no nosso caso, diante da pandemia, a crise era de outra ordem. Não se tratava mais de deslocamentos forçados e transformações drásticas, mas de um aterramento dentro de nossas próprias casas, um confinamento que parece infinito em nosso próprio cotidiano, na rotina, virada de cabeça para baixo. Um convívio intenso e profundo com nós mesmos, com os entes mais próximos, e uma sensação de que o tempo estava parado. No meio disso tudo, o uso intensivo da tecnologia parecia nos ter distanciado de vez dos livros.

Todavia, ao ler os textos produzidos pelos estudantes, percebi que o processo de escrita foi fundamental para elaborar essa estranha experiência (que ainda perdura). Mais do que isso, a leitura desses materiais nos trouxe de volta àquilo que é o essencial da leitura, que vai muito além da mera decodificação dos textos: o “trabalho de pensar, de devaneio. Esses momentos em que levantamos os olhos do livro e onde se esboça uma poética discreta, onde surgem associações inesperadas”.

Diante do momento que estamos vivendo, parece ser imprescindível oferecer esta publicação como presente e com ela resgatar a importância da leitura (e, claro, da escrita) em tempos de crise. Colecionando os textos recebidos é possível entrever uma linha, um percurso narrativo que poderia ser resumido em três momentos: desolação – devaneio – materialidade.

O primeiro momento se inicia com um processo desolador, mas profundo, de elaboração de uma experiência avassaladora da falta. Através da leitura de autobiografias, crônicas e ensaios, realizados pelas 2a e 3a séries do Ensino Médio, aprendemos sobre o presente e encontramos forças de vida.
Mas, se nos confrontarmos com nós mesmos nem sempre é fácil, é também nesse espaço que encontramos o devaneio a partir da invenção de capítulos de Dom Quixote nos tempos atuais, realizados pelos estudantes da 1a série do Ensino Médio, da construção de lugares imaginários, por alunos do 9o ano do Fundamental; as cidades ideais fantasiadas pelo 7o ano, em Português e Inglês; os encontros projetados com os orixás, também pelo 7o ano, até o livro coletivo do 6o ano que cria um mundo paralelo onde não existe pandemia!
Este trajeto é encerrado com a materialidade presente nas diversas atividades realizadas em diferentes disciplinas. Elas deram alento para experienciar a escola no formato online – relatos concebidos na disciplina de projetos da 1a e 2a séries do Ensino Médio sobre as migrações; as reportagens investigativas sobre a intensificação do uso da tecnologia durante a pandemia, elaboradas pelo 8o ano do Fundamental; as partituras gráficas do 8o ano e as anotações sonoras do 6o ano; as análises de documentários e de propagandas da II Guerra Mundial, em História no 8o e 9o anos; e, finalmente, as fotografias intrigantes que ilustram esta edição, da autoria dos alunos do Ensino Médio, bem como as imagens dos cadernos de ofícios e geometria do 6o e 7o anos.
Por tornar tudo isso possível, quero agradecer profundamente a todos os estudantes e cooperados!!!
Que todos possam se sentir nutridos e renovados com essas leituras!

Um abraço,
Profa. Dani Maciel e Equipe Arco Escola-Cooperativa.

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